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Janeiro Branco: porque o desejo de viver precisa ser maior do que a angústia

Levamos por toda a vida as angústias da infância, somadas aos problemas que vão surgindo. Como se isso não bastasse, ainda existem os fatores psicofísicos + socioculturais. Assim, estágios constantes de alegria e de resiliência não são coisas que dependem de uma tomada de decisão do tipo: ‘a partir de hoje serei mais resiliente e alegre’. 

Da mesma maneira, estágios recorrentes de tristeza e das dores de existir, não são opcionais, como se a pessoa acordasse e decidisse que naquele dia ficará triste. Isto explica, por exemplo, porque mesmo tendo razões para estar feliz, a pessoa se sente vazia. Ou mesmo passando por tragédias, a pessoa se comporta corajosa e otimista. 

 A boa saúde mental ressignifica as leituras de mundo Por estas razões, se faz necessária, a prática do amor próprio na compreensão e aceitação de quem é você biológica, mental, emocional e socialmente. Só depois desse encontro consigo mesmo, é que se pode ressignificar às leituras de seu mundo. 0 que é sentido precisa ser verbalizado. 

O que não é verbalizado vira sintoma. E os sintomas não são silenciosos. Fazem uma algazarra na mente, no coração, no espírito e depois adoecem o corpo. Todo o corpo. Porque não há saúde física sem saúde mental. Se a saúde mental for tratada como prioridade desde à infância, com certeza, o desejo de viver, e não a angústia, seria uma latência. 

 Janeiro Branco, mês da saúde mental A campanha Janeiro Branco deste ano busca conscientizar as pessoas sobre a saúde mental e cruzar um paralelo entre questões relacionadas à mente e à pandemia do novo coronavírus. 

 De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o segundo país nas Américas com maior número de pessoas depressivas, cerca de 5,8% da população. O percentual fica atrás apenas dos Estados Unidos, com 5,9%. O Brasil também é o país com maior prevalência de ansiedade, no mundo todo. Cerca de 9,3% da população diagnosticada com o transtorno. Em 2021, o Janeiro Branco realiza sua oitava edição. 

A ideia da campanha surgiu em 2014, através de um grupo de psicólogos da cidade de Uberlândia, em Minas Gerais. O mês e a cor foram escolhidos como uma alusão ao começo do ano, que representa uma ‘página em branco’ a ser preenchida durante o novo ano que se inicia. Banalizando assim o sofrimento de quem verdadeiramente está vivenciando dor psíquica. A saúde mental como desculpa para aglomerações. 

É realmente inconcebível que pessoas irresponsáveis usem a saúde mental como pretexto para quebrar o distanciamento social e frequentarem festas, praias, clubes, etc. Elas se valem da banalização da saúde mental em detrimento de quem realmente está doente. É pouco provável que alguém que esteja em franco sofrimento psíquico saia de casa para socializar. É muito grave isso. Pessoas em sofrimento psíquico precisam ser tratadas como o mesmo respeito que se trata alguém com uma doença física grave. 

Ninguém diz que precisa quebrar o distanciamento social porque se ficar em casa terá câncer. Porque ninguém quer ter câncer. Por outro lado, dizem que se ficar em casa ficarão deprimidos, conquanto acham que a depressão é um resfriado que cura com chá e aspirina. A depressão é uma doença grave que pode levar ao suicídio. Todas as pessoas que têm depressão cometem suicídio? Não. Mas todas as pessoas que cometeram suicídio, apresentavam um tipo de sofrimento psíquico. Então, a saúde mental precisa ser vista como utilidade pública e tratada como prioridade desde à infância. 

 Texto de Clara Dawn, escritora, pesquisadora, psicanalista, psicopedagoga, especialista em prevenção ao suicídio.

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