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Quem é Arthur Miranda


Arthur Miranda aos 19 anos
Arthur Miranda aos 19 anos


O IPAM – Instituto de Pesquisas Arthur Miranda, localizado na cidade de Piracanjuba, Goiás,  é uma entidade sem fins lucrativos que desde 2014 realiza pesquisas teóricas e de campo acerca da mente na infância e na adolescência, numa perspectiva preventiva à drogadição, aos transtornos mentais e ao suicídio. 

Quem é Arthur Miranda?

Arthur Guilherme Miranda Siqueira nasceu em Aparecida de Goiânia - Goiás em 26 de junho de 1993. Filho de Valter Siqueira e Clara Dawn. Aprendeu a falar e andar muito cedo. Com apenas um ano e meio já conseguia dizer, frases do tipo: "Pega me, Tatua". Aos dois anos apelidou o cavalo de um vizinho  de " Tarraine",  e ficava inquieto sempre que o via. Só ficava parado quando vislumbrava pipas no ar.  Aos três anos desapareceu do quintal de casa a procura de uma “pipa torada".  E foi com essa idade que ele ganhou uma irmãzinha.

Aos oito anos Arthur, recebeu de sua mãe uma homenagem em forma de livro: “Artur, o Grande Urso”. Mas o livro, por razões de um atraso editorial, somente foi publicado em junho de 2013. Foi num ambiente de simplicidade, literatura, música e alegria que Arthur chegou aos doze anos. Com essa idade ele já havia lido mais 300 livros de literatura infantil e juvenil. Nesta época venceu dois campeonatos goianos de Karatê; ganhou por dois anos consecutivos a maratona nacional de matemática e era sempre aclamado como o melhor aluno do colégio. Também, aos 12 anos, começou a trabalhar com o seu pai em feiras livres de Goiânia. Seu primeiro ordenado serviu para comprar um presente para a sua mãe: uma miniatura da Harley Davidson. Ao entregar o presente ele disse: "Mãe, gastei o meu salário inteiro com a senhora e estou feliz por isso".

Ainda aos doze anos teve que ser internado às pressas, pois estava com Febre Reumática. Doença que o afastou do Karatê e teve que tomar injeções de Benzetacil, de vinte e vinte dias, até os dezoito anos.

Aos treze anos começou a escrever e aos quatorze já havia escrito mais de cinquenta poemas. Tímido, ele não gostava de mostrar seus versos para estranhos. Deixando-os secretamente escondidos numa caixa de papelão. Onde também guardava os seus desenhos, cadernos de redações do primário e cartas de amor que recebia de suas inúmeras admiradoras. 

Aos quinze  anos, após ser incentivado a beber para ter coragem de entrar num prostíbulo, começou a demonstrar os primeiros sinais de descontrole psicoemocional.  Mesmo assim descobriu que o álcool o deixava “menos tímido” e a partir daí o seu comportamento mudou por completo. De gentil passava a ser grosseiro; de carinhoso passava a ser indiferente; de obediente passava ser ausente; de estudioso passa a ser relapso; de verdadeiro passava a ser dissimulado...  A predisposição genética para a dependência estava começando a desencadear transtornos psicóticos.

Aos dezesseis anos: começou a frequentar festas em casas de amigos ou clubes. Lugares onde sempre se tem a oportunidade ao uso de drogas lícitas e ilícitas. Nessa fase começou a se preparar para o vestibular. Uma turbulência ocorreria em sua mente entre o seu eu responsável e comedido e um outro eu do qual ele se envergonhava e tentava esconder daqueles a quem ele mais respeitava como sendo exemplos de boa índole. Nesse lapso de tempo a família se mudou para o Centro de Goiânia para facilitar o seu acesso ao cursinho preparatório para o vestibular.

Aos dezoito anos ele se alistou na Aeronáutica e passou em todos os testes. Mas desistiu do Serviço Militar quando descobriu que teria que ficar em regime interno por um ano, mostrando assim os primeiros sinais de intensa convulsividade pelo uso de maconha.  Nessa fase a fissura por vivenciar as emoções provocadas por sua droga favorita, passou a se manifestar em surtos de agressividade e a predisposição genética aos transtornos mentais dão os primeiros sinais de desencadeamento da Esquizofrenia. Por causa do efeito do álcool passa a agredir fisicamente amigos, primos, a irmã, e até a mãe. Nessa fase a sua mãe requereu intervenção jurídica para que ele fosse obrigado a se tratar. A Juíza indicou cessões de terapia e a internação compulsória para desintoxicação. Mas isso somente aconteceu quase um ano depois quando os surtos psicóticos levaram-no a um quadro de risco eminente de suicídio.

Sua luta interior era tamanha que apesar do uso contínuo de maconha e álcool, conseguiu uma vaga no curso de Arquitetura da Universidade Estadual de Goiás - em Anápolis Go.

Mas Arthur não demonstrou contentamento. Algo dentro de si não ia bem. Ele estava doente. Muito doente e não sabia como lidar com isso. Estava triste, insatisfeito, vazio e amargo. E assim não pôde aproveitar nada do que o seu próprio esforço lhe ofereceu. Não tinha disposição mental e tampouco física para se empenhar na Universidade: "Eu vivia para usar maconha, porque eu a usava para viver" - disse ele em fase de recuperação.

A convivência com a família se tornou insuportável por causa de suas constantes agressões verbais e físicas. Já não aparecia mais em sua casa em Goiânia, não atendia o celular. Afastou-se da mãe, do pai e até dos primos. Isolava-se com companheiros da ativa em lugares ermos para “viajarem”.

Aos dezenove anos e meio: teve o primeiro Transtorno Psicótico Agudo do tipo Esquizofreniforme: vozes vindas de todos os lados. Até as pessoas que passavam de carro e moto, ele dizia que podia ouvi-las e ele acreditava no que as vozes diziam e por isso achava que “todos” estavam contra ele. Visões de que as pessoas que estavam ao lado dele estavam sem cabeça e assim as agredia atirando o que tivesse ao alcance da mão ou com golpes de karaté. Isso aconteceu várias vezes, inclusive dentro das clínicas em que esteve internado. Na primeira internação ele começou a escrever os fragmentos poéticos que foram enxertados em seu Inventário Cenográfico. Releu os seus livros favoritos: “O apanhador de pipas”; A comédia da vida humana; “Poemas e ensaios de Edgar Allan Poe”; “Memórias póstumas de Brás Cubas” e a “Lira dos vinte anos”. Saiu da clínica depois de 30 dias. Livre do surto psicótico, mas com o diagnóstico de esquizofrenia concomitante com uso de substâncias psicotrópicas. Mas uma recaísse ao uso de Cannabis e/ou álcool o levaria certamente aos surtos com risco iminente de suicídio. 

E foi nesta insuportável fase de surtos psicóticos que Arthur descobriu que tinha um filho a quem ele pediu para ser registrado com o nome de Benjamin François. A descoberta lhe impulsionou ao desejo de viver. Ele passou a fazer planos de autocura, de trabalho, de estudo, de cuidar do filho. Entretanto, sua dor psíquica era maior do que se possa imaginar, não havia esperança brilhante em sua caixa de Pandora. E no instante em que se viu discriminado por seus companheiros do seu ciclo de amizades e por seu pai (que exigira o teste DNA por dizer que não havia loucos em sua família e mesmo dando positivo, abandonou o filho esquizofrênico, Arthur mergulhou em tristezas e silêncio. Saía do quarto apenas para comer, tomar banho e ir ao grupo de Narcóticos Anônimos. Permaneceu assim por uns dois meses, pois se sentia discriminado em sua doença justamente por àquele que deveria lhe amar incondicionalmente e por àqueles a quem ele dedicara tantos anos de suas melhores alegrias. Foi nessa reclusão que ele escreveu as primeiras partes de seu livro: No jardim de ervas daninhas – pague para entrar e reze para sair.

 Arthur fazia terapias semanais e frequentava o grupo de  Narcóticos Anônimos todos os dias. Começou a trabalhar  às tardes no mesmo local que a sua mãe e durante cinco meses e vinte e sete dias se manteve lúcido, sereno, produtivo/criativo e longe das drogas.

(No dia 26/06/2013 – seu aniversário de 20 anos): saiu para um jantar de comemoração e reconciliação com o seu pai, a quem ele chamava de “afeto desafetuoso”. No dia seguinte, ele disse à sua mãe que havia recaído, que fizera um teste consigo mesmo, quis colocar a prova o que os médicos lhe disseram sobre - “Você nunca mais poderá fumar maconha, se usar, entrará em surto outra vez”.  – “ Dito e feito. Elas estão de volta”.  - Afirmou ele.  Diante dessas declarações a mãe ligou para seu padrinho de NA que tentara convencê-lo, inutilmente, a tomar os antipsicóticos. 

Arthur precisou ser internado no dia 30/06/13 em franco-surto-psicótico com risco iminente de suicídio. Dessa vez ficou mudo – às vozes o mandaram se calar e ele se calou. Travou os lábios para não mais tomar os remédios e fumava compulsivamente até acabarem todos os cigarros da carteira. Na noite da internação saiu de casa sem dizer coisa alguma e a mãe o procurou por todos os lugares. Ele foi encontrado pelos companheiros de NA e com eles ele falou. Disse que tinha recaído e que não seria mais o secretário de NA. Disse que as vozes estavam gritando em seus ouvidos e que todas as pessoas queriam que ele se matasse. Inclusive seus familiares e amigos mais próximos.

Os companheiros de NA o convenceram da necessidade da internação e ele compreendeu que precisava outra vez de ajuda medicamentosa. Gostou da clínica, do psiquiatra e principalmente de sua terapeuta. (Relatos que ele deixou em seus escritos). Os remédios tiveram suas doses dobradas e redobradas, depois foram modificados, mas a primeira psiquiatra já havia dito que se ele usasse maconha outra vez e voltasse a beber o quadro poderia ser irreversível. (Em seus escritos, Arthur reafirmou que usou a droga para desafiar essa informação, mas que estava consciente de que seu quadro era grave e que precisava ficar internado); Na clínica foi solidário com os outros internos e participava de todos os trabalhos e jogos. Respondeu todas as perguntas dos 12 passos de NA e concluiu o seu Inventário Cenográfico.

Às vezes emudecia e preferia ficar isolado em um canto qualquer. - "Falávamos sempre com ele e ele demonstrava otimismo ao tratamento. Coisa que ele lutava veementemente para dar certo. Arthur sempre esteve em destaque. Aquele menino que qualquer pessoa que olhasse para ele era capaz de afirmar que ele tinha vindo ao mundo para ostentar o sucesso em tudo que ousasse fazer. Em momento algum de sua doença, ele reclamou. Jamais eu o ouvi dizer coisas negativas sobre o fato de saber-se esquizofrênico. O transtorno mental e a drogadicção jamais foram tabus entre nossas conversas. Ele não se envergonhava em dizer publicamente sobre o que estava acontecendo na vida dele. Porque ele realmente acreditava que sua história poderia servir de exemplo”, escreveu a sua mãe, Clara Dawn.

Dia 17 de agosto de 2013. Depois que trocou a medicação ele passou três dias sem ouvir às vozes, mas logo elas voltaram com tamanha intensidade que ele não suportou e decidiu por um fim em seu tormento. O enfermeiro saiu junto com ele para o jantar às 21 horas. Ele não jantou, mas permaneceu junto ao grupo por alguns minutos, depois tomou os remédios e disse que ia ao banheiro. Às 21h20min foi encontrado morto. – “Ele optou pela automorte. Não é verdade que ele queria morrer, ele só não queria mais viver. É diferente”. Clara Dawn

A última coisa que Arthur escreveu foi:

“Não há nada neste meu inventário
Que eu não tenha de fato vivenciado
Estou em paz com a minha consciência

Não tenho reservas,
Não tenho mais medo,
Não tenho traumas a serem trabalhados
Não tenho ressentimentos
Aceitei a minha doença
Sei que não há cura e é fatal

Mas entrego a minha existência ao meu Poder Superior
Estou limpo e sereno
E sei que é só por hoje
Mas um dia de cada vez funciona.

Esse é o meu ensaio cenográfico,
Essa é minha melhor cena
Estou voltando para casa.”. 


PS. Arthur Miranda nasceu no dia 26 de junho, por coincidência do destino, este é o dia Internacional de Combate ao Uso e ao Tráfico de Drogas

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